Resumo:
Raul Pilla critica duramente a tentativa de reeleição do presidente Juscelino Kubitschek, considerando-a um grave sintoma da decadência da vida política brasileira. Para o autor, mesmo que a proposta não prospere devido a interesses conflitantes, como a candidatura do marechal Lott, a simples intenção já revela o desejo de perpetuação no poder, contradizendo o princípio republicano da temporariedade dos mandatos. Pilla denuncia a contradição de se condenar a monarquia pela continuidade do poder e, ao mesmo tempo, querer assegurar essa permanência a aventureiros do voto popular. Ele destaca que a reeleição, embora defendida por alguns como expressão da vontade democrática, pode representar uma ameaça à própria democracia, pois o poder estatal oferece ao governante meios de manipulação e coerção. Por isso, a proibição da reeleição nas constituições republicanas brasileiras é vista por ele como uma das mais importantes garantias democráticas. Também distingue os sistemas presidencialista e parlamentarista: no primeiro, a reeleição representa risco grave; no segundo, a figura do presidente é simbólica e sua recondução não compromete o regime. Raul Pilla considera ainda mais perigosa a possibilidade de um mandato-tampão, por manter o mesmo grupo no poder sob aparência de legalidade. Conclui que, mesmo que Juscelino fosse um grande estadista — o que ele nega —, a reeleição seria injustificável. Diante do que considera uma ameaça institucional, Pilla lamenta a apatia da população diante do avanço de forças políticas que não respeitam os limites democráticos.