Abstract:
Critica a maneira como Getúlio Vargas se refere ao governo como sendo "seu", apontando que essa linguagem é inadequada em uma república presidencialista. Ele traça um paralelo histórico, mostrando que, no absolutismo, o governo era propriedade do monarca, considerado um representante divino. Com a monarquia parlamentar, o rei perdeu o poder efetivo, tornando-se apenas um símbolo da unidade nacional, o que justificava, de certa forma, o uso da expressão "meu governo". No presidencialismo, no entanto, o presidente não é dono do governo, apenas o exerce temporariamente como o mais alto dos funcionários públicos. O governo pertence ao povo, sendo igualmente de quem o apoia e de quem o combate. Assim, para Pilla, a insistência de Vargas em falar no "seu governo" não é apenas um deslize de linguagem, mas sim uma expressão profunda de sua visão política. Argumenta que essa postura revela um homem que se encaixa na tradição do caudilhismo latino-americano, em que o poder pessoal sobrepõe-se às instituições. Para ele, essa mentalidade aproxima Vargas dos antigos déspotas, que viam o Estado como sua propriedade. Dessa forma, a escolha de palavras do presidente reflete uma filosofia política autoritária, marcada pelo personalismo, que remete ao absolutismo e ameaça os princípios republicanos de um governo que deve pertencer a toda a nação.